LENDAS DO CHÁ

LENDA CHINESA DA ORIGEM DO CHÁ

As origens do chá perdem-se no fio do tempo, no entanto existem algumas lendas que subsistem até hoje e que procuram revelar como tudo terá começado.

Segundo a lenda chinesa, terá sido em 2737 a.C., na China que pela primeira vez se preparou uma infusão de camellia sinensis, a planta do chá.

Tudo aconteceu numa tarde particularmente quente quando o imperador Shen Nong, o Agricultor Divino - impulsionador da agricultura no país, estudioso das plantas e do seu valor medicinal - abrigado debaixo de um arbusto selvagem sentiu sede. Seguindo o costume, que procurou instituir junto do seu povo, de ferver sempre a água antes de a beber, esperou que a sua água fervesse para então saciar a sede. Quando uma ligeira brisa agitou os ramos do arbusto, soltando algumas folhas que logo se misturaram na água quente, conferindo-lhe uma cor ligeiramente diferente e um perfume delicado. Cheio de curiosidade Shen Nong não resistiu e decidiu provar a beberagem, encantando-se com o seu sabor. O arbusto era uma camellia sinensis, e assim terá nascido o chá.

Embora se trate de uma lenda, existem muitas evidências históricas de que o chá é de facto originário da China: provavelmente do Yunnan, no sudoeste da China, uma zona montanhosa junto aos Himalaias com condições ideais para o crescimento da Camellia sinensis em estado selvagem e onde terá nascido a primeira produção de chá do mundo.

Inicialmente esta planta foi apreciada sobretudo pelas suas características terapêuticas, e o costume de beber infusões das suas folhas frescas estendeu-se por todo o país. Escavações arqueológicas permitiram encontrar acessórios do chá nos túmulos da dinastia Han (206 a.C. – 220 d.C.) testemunhando a importância do seu consumo na corte nesse período. Data de 332 d.C. o primeiro registo sobre o cultivo e manufatura do chá, escrito por Zhang Yi. Durante a dinastia Tang (618-906 d.C.) o chá era já a bebida oficial da China. 

No século VII o chá prensado em formatos diversos era levado em caravanas por intrépidos viajantes que percorriam importantes rotas comerciais, permitindo à cultura chinesa potenciar a difusão do chá noutras regiões. 

Foi também na China, que durante o século VIII, Lu Yu escreveu a primeira grande obra inteiramente dedicada ao chá intitulada: Cha Jing (O Clássico do Chá).




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LENDA JAPONESA DA ORIGEM DO CHÁ 

No Japão uma outra lenda explica a origem do chá, relacionando-a com a disseminação do budismo zen e com o monge Bodhidharma. Também denominado Ta Mo ou Dharuma, Bodhidharma é uma personagem enigmática na história do budismo: historiadores budistas antigos identificaram-no como o 28º Patriarca do Budismo, reunindo provas da sua existência, outros estudiosos defendem tratar-se de uma figura lendária pondo em causa a veracidade dos seus dados biográficos.

Bodhidharma terá sido o terceiro filho do Rei Sugandha do Sul da Índia, e membro dos kshatriya ou casta guerreira. Conta-se que a sua infância foi passada com o mestre budista Prajnatara que lhe transmitiu os princípios do budismo zen e o iniciou na arte da meditação. Bodhidharma foi um discípulo dedicado e ao chegar à meia-idade era já um respeitado mestre budista. Após a morte de Prajnatara, Bodhidharma decidiu partir em missão para a China.

Durante a sua peregrinação o monge pretendia permanecer desperto e dedicar-se a longos períodos de oração e meditação. O tempo foi passando, e Bodhidharma exausto acabou por adormecer. Quando acordou foi assolado pelo remorso e indignação pela fraqueza demonstrada, e para que tal não voltasse a acontecer arrancou as próprias pálpebras, lançando-as à terra. Após sucessivas horas de oração verificou que nesse preciso lugar havia nascido uma planta misteriosa. Curioso, o monge colheu as suas folhas, sentiu o seu aroma cativante e decidiu com elas preparar uma beberagem, dando-se conta que possuíam o poder de o manter em vigília permanente. Encantado com a sua descoberta partilhou-a com os seus seguidores, que também passaram a usar as folhas de chá para vencer o cansaço durante a meditação. Da China o missionário terá seguido para o Japão, levando consigo o chá e introduzindo-o nos mosteiros budistas.

Segundo o livro Biographies of the High Priests (654 d.C) do sacerdote Tao-hsuan, Bodhidharma terá chegado em 520 d.C ao templo Yung-ning, em Lo-yang na China.

Apesar da controvérsia em torno desta figura, é atualmente aceite que o chá terá sido difundido no Japão pelos monges budistas. No século IX este era já consumido no país, importado da China e cultivado nos jardins dos mosteiros por estes religiosos. No século XII, após um período de relações conturbadas entre os dois países e de declínio do consumo de chá, o monge japonês Yeisai-zenji vindo da China onde estudou o budismo zen, traz consigo  sementes de chá e o seu cultivo é incrementado no arquipélago nipónico: primeiro na ilha de Kyushu, e mais tarde na ilha Honshu, especialmente em Uji, perto de Quioto. No século XIII o papel dos monges budistas é preponderante na divulgação da arte do chá no Japão: detentores do título de mestre-de-chá eram também influentes conselheiros espirituais de aristocratas e samurais, a quem ensinavam os rituais de celebração do chá.